Quem For Brega, Levante a Mão!

 

Quem me acompanha no Instagram e/ou no meu blog sabe que eu amo música desde a infância e que foi a banda KISS que me levou ao paraíso infernal do rock. Durante algum tempo os mascarados de Detroit representaram para mim o que mais havia de pesado e diabólico no mundo musical. É claro que depois descobri sons tão mais pauleiras e músicos bem mais tenebrosos que Gene Simmons, Paul Stanley e companhia. Mesmo assim, para mim, o KISS continuou (e ainda continua) sendo uma das maiores bandas de rock de todos os tempos. Os caras realmente sabem entreter, emocionar e, até mesmo, assustar pessoas de várias gerações. Um bom exemplo disso acontece na minha família: meus três netos mais velhos (no total, tenho seis) são apaixonados pelo KISS. Eles sabem até cantar, em um inglês criado por eles mesmo, I Love It Loud e Lick It Up.

            Acredito que você esteja se perguntando: “o que o KISS tem a ver com o título dessa postagem? Será que o cara quem escreveu isso está insinuando que os mascarados de Detroit fazem músicas no mesmo estilo de Amado Batista e Reginaldo Rossi?”

            Não, eu não estou insinuando que o KISS compõe músicas bregas ou que seu visual e performance são cafonas. Eu não, porém já ouvi muitas vezes alguém dizer isso não apenas sobre o KISS, mas também de Bon Jovi, Def Leppard, Scorpions e outras bandas de Hard Rock e Heavy Metal. 

Existem três tipos de pessoas que pensam e falam isso. O primeiro pertence àquele grupo que se diz intelectual e conhecedor da boa música. Para esse tipo, música tem que ser suave e, muitas vezes, com letras politicamente engajadas. Pessoas desse grupo amam bossa nova, tropicália, clube da esquina, algumas bandas de rock do fim dos anos 1960 e início da década de 1970. Até se arriscam a ouvir algo mais “pesadinho” como Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath e chegam ao limite com Iron Maiden. Passou daí, já é música de baixa qualidade.

O segundo grupo é composto exatamente por pessoas que se iniciam com Iron Maiden e daí já pulam para o campo do metal extremo: thrash, death, black etc.

E, por fim, tem um terceiro tipo, pertencente a um grupo que também diz que KISS, Bon Jovi, Scorpions e outros são bregas. O que os indivíduos desse grupo ouvem? O pop internacional e nacional das décadas de 1970 e 1980. Para tais, o que está fora disso, ou é brega e imoral, ou é barulhento e satânico, ou é intelectual e soberbo demais.

            Como não pertenço a nenhum dos grupos citados no parágrafo anterior, sinto-me livre e no direito (ou dever) de ao menos tentar esclarecer, de forma imparcial, algumas questões sobre ser ou não ser brega. Antes, preciso deixar bem claro que o assunto será tratado aqui conforme o que o termo significa e representa no Brasil (independentemente se a banda, cantor ou cantora for ou não brasileiro).

            Existem muitas versões para a origem da palavra “brega”, no entanto a mais aceita é a que deu Caetano Veloso no livro Verdade Tropical. De acordo com o cantor baiano, o termo surge a partir do nome de uma rua de Salvador chamada Padre Manuel de Nóbrega. Segundo as palavras do cantor baiano, “dizem que o termo surgiu a partir do nome Padre Manuel da Nóbrega de uma rua de zona de prostituição em Salvador ou Cachoeira, sobre cuja placa quebrada restavam apenas as duas últimas sílabas do sobrenome do sacerdote (brega).” Essa explicação é também dada, entre outros, por Altair J. Aranha, pseudônimo do pesquisador Luís Milanesi, no seu Dicionário Brasileiro de Insultos e pelo saudoso compositor e poeta Waly Salomão.

            Baseando-se na informação fornecida acima, concluo que a rua de meretrício de Salvador passou a ser conhecida pelo apelido de “brega” e que o termo se expandiu pelo Brasil levando consigo o mesmo significado. Seria, então, a música brega uma música de zona?

Mais ou menos isso, como veremos a seguir.

            Na década de 1960, dois estilos musicais disputavam e dividiam o público brasileiro: a Bossa Nova e o rock ‘n roll da Jovem Guarda. Os fãs da música de Tom Jobim, Vinícius, Nara Leão e João Gilberto eram os “intelectuais engajados” que desprezavam os “alienados” fãs de Roberto, Erasmo e Wanderléa. Com o domínio desses dois estilos nos programas de rádio e televisão naquela década, os artistas de outros gêneros musicais, principalmente os ritmos nordestinos, passaram a ter pouco espaço na mídia. Para sobreviver, muitos desses cantores apresentavam seus trabalhos em casas de shows na periferia e/ou em prostíbulos. Grande parte dessas músicas narravam em suas letras, de forma dramática, amores não correspondidos, traições e decepções amorosas.

Por ter um público formado por uma maioria de baixo poder aquisitivo, a mídia, preconceituosa e elitista, considerou de péssima qualidade qualquer música da periferia e deu a todas o rótulo de brega, ou seja, se não agrada a classe média é coisa de zona (como se os playboys da Jovem Guarda e os intelectuais da Bossa Nova não frequentassem prostíbulos).

No final da década de 1960 e início da década de 1970, com a ascensão de três novos movimentos culturais no Brasil (Tropicália, Clube da Esquina e o quase esquecido rock setentista nacional), o termo brega passa a designar também o iê iê iê do programa Jovem Guarda (que teve seu fim em 1968). O feitiço vira contra o feiticeiro, e a música daquela turma jovem da classe média, agora já entre os 30 e 40 anos, recebe o mesmo rótulo que eles também davam para os ritmos vindo da periferia.

No entanto, parece que o termo não afetaria a carreira de alguns roqueiros brasileiros, sobreviventes da década anterior. Roberto Carlos, o ídolo maior da Jovem Guarda, tornou-se o rei da música romântica brasileira. Erasmo Carlos continuou (e continua) sendo uma influência para roqueiros brasileiros de várias gerações. Contudo, quem se beneficiou com o termo foi Reginaldo Rossi. O pernambucano, que na década de 1960 era líder do grupo de rock The Silver Jets, deu uma repaginada na sua música a partir dos anos setenta e se tornou o Rei do Brega, título do qual se orgulhava e o dividia com o também pernambucano Oswaldo Bezerra.

Até aqui, entendemos que o termo “brega” foi criado e usado para designar qualquer música com letras românticas e/ou com arranjos considerados de baixa qualidade por aqueles que se acham conhecedores e apreciadores da “boa música”.  No entanto, a partir dos anos 1980, ser brega significa também não ter bom gosto para se vestir, para se pentear ou se maquiar. Porém, não devemos nos esquecer de que gosto é algo subjetivo, que varia de acordo com a época, com o lugar e com o indivíduo.  Sendo assim, o que é brega hoje pode não ter sido na década de 1970 e vice-versa. Por exemplo, no final década de 1990 e início do séc. XXI, alguns cantores (entre outros, Odair José e o próprio Rossi) que eram considerados de mau gosto nos anos 70 tornaram se cults; hoje, voltaram a ser chamados de bregas. O mesmo ocorre com a moda: calças bocas de sino e camisetas com estampas em cores psicodélicas, por exemplo, várias vezes já foram roupas muito legais de se usar e outras tantas vezes já foram chamadas de cafona.  

Até mesmo os termos são subjetivos; o que pode ser pejorativo para uns, pode ser um elogio para outros. Eu, por exemplo, sinto-me bem  ao ser chamado de brega, pois gosto muito de músicas de cantores e cantoras que são assim rotulados.

Acho que até aqui você mesmo já pode ter sua própria opinião sobre o KISS. Afinal, os quatro de Detroit podem ou não serem considerados bregas? Avalie as letras, o ritmo, a maquiagem, os penteados e, é claro, o que você considera como bom e mau gosto. Após a sua a avaliação, deixe nos comentários a sua conclusão. No mais, um grande abraço...

 

...e música para todos!

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