Isso Também É Rock 'N Roll?

 

 

Na postagem anterior, escrevo sobre o Rock In Rio e a já cansativa e clichê discussão sobre a apresentação de artistas que, segundo muitos, não deveriam estar no elenco de um festival que tem no seu nome a palavra “rock”.

No mesmo texto, eu cito alguns artistas que, embora façam parte da cena do rock nacional, foram hostilizados durante suas apresentações no evento. Isso porque suas músicas não pertenciam a determinada ramificação do rock ou até mesmo porque não eram considerados artistas de rock por alguns que os hostilizavam.  Esse é o caso, por exemplo do Glória, um grupo de Metalcore, mas comparado e confundido muitas vezes com uma banda de Emocore.

Emocore, ou apenas emo, é um subgênero do rock odiado por uma boa parte de roqueiros. Alguns (vários), entre esses odiosos, desprezam tanto o estilo que não o classificam como rock ‘n roll e fazem com ele o mesmo que fazem com o sertanejo, o pagode, o funk carioca, a axé music etc.: colocam-no em um saco e o lançam no lixo musical.

Esse menosprezo a determinados subgêneros e a questão sobre o que é ou não é rock são discussões que já existem há décadas. Sou testemunha ocular (e auricular) de que a new wave, o synthpop, o gótico (no Brasil se chamava dark nos anos 1980) e mais alguns subgêneros eram discriminados por alguns milhões de roqueiros tanto quanto eram outros gêneros não-rock. A justificativa para o ódio não era a qualidade da música, mas sim por não incluírem tais estilos na categoria “rock”.

Esse preconceito e essa excomunhão não vinham só dos radicais fãs do metal, mas também dos amantes do progressivo e do rock psicodélico, dos beatlemaníacos, dos puristas do rockabilly e dos revoltados punks.

 Por falar em punks, foram eles que, na década de 1970, se revoltaram não só contra o capitalismo e as músicas midiáticas como a Disco, mas também contra o eruditismo do rock progressivo, o virtuosismo dos guitarristas do heavy metal e o comodismo do movimento hippie. Para aqueles jovens de roupas rasgadas, cabelos moicanos e acessórios (brincos, correntes e espetos) por todo o corpo, rock de verdade não é elitizado, ele deve ser cru e rebelde. Um roqueiro não se forma em conservatório; deve vir de guetos como fora no início, no final década  de1940 e início dos anos 1950. Ou seja para eles, apenas o punk rock e o rockabilly eram realmente rock ‘n roll; o resto era qualquer coisa, menos rock.

Mais ou menos assim pensava Bo Didley, um dos maiores nomes do blues e um dos pioneiros do rock ‘n roll. Em uma entrevista à revista Bizz (se não me falha a memória) no final da década de 1980, ele disse que rock é o que faziam ele, Elvis Presley e os pioneiros do estilo. Na opinião desse incrível músico do Mississipi, o que veio depois (ele cita, como exemplo Beatles, Led Zeppelin e U2) é legal e elogiável, mas não deveria se chamar “rock”. Raul Seixas defende a mesma ideia de Bo Didley e diz que o rock morreu em 1959.

Se formos avaliar por meio de um olhar purista, as falas de Raul e Bo estão certas. Realmente o rock ‘n roll, que nasceu da fusão do blues, jazz, gospel e country, deu seus primeiros suspiros na forma de rhythm and. blues e rockabilly, ou seja, no estilo de Chuck Berry, Elvis Presley, Little Richard, Jerry Lee Lewis, Carl Perkins, Fats Domino e do próprio Bo Didley.  Sendo assim, apenas esse tipo de música pode ser classificada como rock.

No entanto, dizer isso é o mesmo que dizer que o mundo não é mais o mundo por causa das mutações que ele sofreu e continua sofrendo. E assim como o mundo e tudo o que existe no Universo, o rock também passou e passa por mudanças, pois ele (que nasceu da fusão de diferentes estilos) tem como uma de suas principais características fundir se com outros gêneros musicais, gerando assim seus subgêneros.

No Reino Unido, por exemplo, no início da década de 1960, o casamento do pop britânico com o rock vai gerar a beat music. Entre os representantes desse estilo estão Gerry & The Pacemakers, The Searchers, Freddie And The Dreamers, Herman’s Hermits e a banda que definitivamente mudaria a cara do rock e da música em geral: The Beatles.

E depois disso, o rock ‘n roll continuou se relacionando com outros estilos musicais e gerando filhos que, como o pai, também se relacionou com outros gêneros e até mesmo em ralações incestuosas entre eles, com o próprio pai e com os avós (country, blues, gospel e jazz). Não vou me prolongar aqui com essas fusões (pois são inúmeras), mas prometo em futuras postagens escrever separadamente sobre alguns subgêneros do rock ‘n roll.  

Acho que até aqui deu para entender que o rock tem várias formas e que aquela banda ou artista solo que você tanta detesta pode também ser rock ‘n roll. Porém, se não for, merece tanto respeito quanto qualquer ser humano. No mais, abraços...

...e música para todos!


 [MM1]

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